Clínica da Mente
Glossário · Perturbações Alimentares e da Ingestão

Pica

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Uma criança come terra no jardim. Um adolescente mastiga borracha ou papel. Uma grávida sente vontade intensa de comer gelo. Uma pessoa com deficiência intelectual procura tinta, tecido, sabão, cabelo, plástico ou pequenos objetos.

À primeira vista, estas situações podem parecer estranhas, birra, curiosidade ou mau hábito. Mas quando a ingestão de substâncias não alimentares é persistente, inapropriada para a idade e traz risco para a saúde, pode tratar-se de Pica.

A Pica é uma perturbação alimentar caracterizada pela ingestão persistente de substâncias sem valor nutritivo e que não são alimentos. Pode envolver terra, barro, gelo, papel, cabelo, tinta, sabão, tecido, metal, plástico, pedras, cinza, amido, cola, madeira, fezes ou outros materiais.

A Pica pode ter várias causas. Em alguns casos, está ligada a défices nutricionais, como falta de ferro ou zinco. Noutros, surge em contexto de gravidez, autismo, deficiência intelectual, dificuldades sensoriais, stress, negligência, ansiedade ou comportamento aprendido.

O mais importante é compreender que a Pica não deve ser tratada apenas como uma questão psicológica. Pode ter consequências médicas graves e exige avaliação adequada.

A Psicoterapia HBM pode ajudar de forma acessória quando existem fatores emocionais associados, como stress, ansiedade, trauma, insegurança, negligência emocional ou padrões familiares difíceis. No entanto, o tratamento principal deve envolver avaliação médica, correção nutricional, segurança ambiental e intervenção comportamental.

O que é — Definição Clínica

De acordo com o DSM-5-TR, a Pica caracteriza-se pela ingestão persistente de substâncias não nutritivas e não alimentares durante pelo menos um mês. Para ser considerada Pica, esta ingestão deve ser inapropriada para o nível de desenvolvimento da pessoa e não deve fazer parte de uma prática cultural ou socialmente aceite.

A Pica não deve ser diagnosticada em crianças com menos de 2 anos, porque levar objetos à boca pode fazer parte do desenvolvimento normal nessa fase.

  • Terra ou barro

  • Gelo

  • Papel

  • Cabelo

  • Tecido ou lã

  • Tinta

  • Sabão

  • Plástico ou metal

  • Pedras ou cinza

  • Carvão ou amido

  • Cola ou madeira

  • Fezes ou pequenos objetos

Formas específicas

Algumas formas têm nomes específicos: Geofagia (ingestão de terra, barro ou argila), Pagofagia (ingestão persistente de gelo) e Tricofagia (ingestão de cabelo, que pode causar massas de cabelo no estômago ou intestino).

A Pica pode ocorrer em crianças, adolescentes, adultos, grávidas e pessoas com perturbações do neurodesenvolvimento. É particularmente importante em pessoas com autismo, deficiência intelectual ou dificuldades sensoriais, porque pode ser mais persistente e perigosa.

Sintomas e Sinais

O sinal central da Pica é a ingestão repetida de substâncias que não são alimentos.

CategoriaSintomas comunsImpacto real no quotidiano
ComportamentalComer terra, papel, cabelo, tinta, sabão, plástico, metal ou outros materiaisRisco de intoxicação, infeção, lesão ou obstrução
FísicoDor abdominal, obstipação, náuseas, vómitos, perda de apetitePode exigir avaliação médica urgente
NutricionalAnemia, défice de ferro, zinco ou outros nutrientesPode aumentar cansaço, irritabilidade e desejo por certas substâncias
DesenvolvimentoPica em autismo, deficiência intelectual ou atraso do desenvolvimentoRequer supervisão e intervenção comportamental
FamiliarNecessidade de vigilância constante, medo de ingestão perigosaSobrecarga para pais e cuidadores

Ingestão persistente

Não se trata de uma criança provar areia uma vez ou de alguém mastigar gelo ocasionalmente. A Pica envolve ingestão repetida e persistente.

Procura ativa da substância

A pessoa pode procurar ativamente a substância: raspar tinta, comer terra de vasos, morder tecidos, guardar papel, procurar objetos pequenos ou ingerir cabelo.

Riscos físicos

  • Intoxicação por chumbo, especialmente com tinta antiga

  • Parasitoses ou infeções por ingestão de terra ou fezes

  • Obstrução intestinal

  • Perfuração ou lesão interna por objetos cortantes

  • Obstipação, náuseas e vómitos

  • Dor abdominal

  • Problemas dentários

  • Anemia

  • Perda de peso ou atraso de crescimento

  • Necessidade de cirurgia em casos graves

Sinais de alerta

  • Tinta, metal ou pilhas

  • Ímanes ou objetos pontiagudos

  • Vidro ou produtos de limpeza

  • Fezes ou terra contaminada

  • Cabelo em grandes quantidades

  • Qualquer substância tóxica

Nestes casos, a avaliação médica pode ser urgente.

Causas e Fatores de Risco

A Pica pode ter várias causas. Muitas vezes, não existe um único motivo. Pode resultar da combinação entre fatores médicos, nutricionais, sensoriais, emocionais, comportamentais e ambientais.

Défices nutricionais

A Pica está frequentemente associada a défices de ferro, zinco ou outros micronutrientes. A pagofagia, ou desejo persistente de comer gelo, é muitas vezes descrita em pessoas com anemia por deficiência de ferro. Quando existe défice nutricional, a correção médica pode reduzir ou eliminar o comportamento em alguns casos.

Gravidez

Durante a gravidez, algumas mulheres desenvolvem desejo intenso de ingerir gelo, terra, argila, amido ou outras substâncias. Isto deve ser avaliado, porque pode estar associado a défices nutricionais e riscos para a mãe e para o bebé.

Autismo e deficiência intelectual

A Pica é mais comum em pessoas com autismo, deficiência intelectual ou atraso do desenvolvimento. Nestes casos, pode estar associada a procura sensorial, dificuldade em distinguir alimento de não alimento, comportamento repetitivo, comunicação de desconforto ou falta de consciência do risco. A avaliação comportamental é especialmente importante nestes casos.

Fatores sensoriais

  • Gelo pela textura e frio

  • Terra pelo cheiro ou consistência

  • Papel pela sensação ao mastigar

  • Tecido pela textura

  • Cabelo pelo ritual sensorial

Nestas situações, pode ser necessário encontrar alternativas sensoriais seguras.

Stress, ansiedade e trauma

Em algumas pessoas, a Pica pode aumentar em momentos de ansiedade, stress, solidão, tensão, negligência, trauma ou insegurança emocional. A ingestão pode funcionar como autorregulação, alívio, ocupação, ritual ou tentativa de acalmar. É aqui que a Psicoterapia HBM pode ter um papel acessório: compreender que emoções, experiências ou contextos podem estar a aumentar o comportamento.

Negligência ou ambiente pouco supervisionado

A Pica pode ser agravada quando há acesso fácil a substâncias perigosas, falta de supervisão, ambientes desorganizados, privação, negligência ou ausência de rotinas. Isto não significa culpar os pais ou cuidadores. Significa reconhecer que o ambiente tem impacto na segurança.

Comportamento aprendido

Em algumas crianças ou pessoas com perturbações do desenvolvimento, a ingestão de objetos pode ser reforçada sem intenção. Por exemplo, pode gerar atenção imediata, fuga a uma tarefa, acesso a estímulos sensoriais ou reação intensa dos adultos. Nestes casos, a análise comportamental ajuda a compreender a função do comportamento.

Como é Diagnosticada

O diagnóstico deve ser feito por profissional qualificado, como pediatra, médico de família, psiquiatra, psicólogo, nutricionista ou equipa multidisciplinar, conforme o caso. A avaliação deve começar pela segurança médica.

  • História do comportamento: que substâncias são ingeridas, há quanto tempo, com que frequência e em que contextos.

  • Idade e desenvolvimento: se o comportamento é inapropriado para a idade e nível de desenvolvimento.

  • Avaliação médica: pesquisa de anemia, défices de ferro, zinco, cálcio ou outros nutrientes.

  • Risco de intoxicação: especialmente chumbo, tinta, metais, produtos químicos ou substâncias contaminadas.

  • Avaliação gastrointestinal: dor abdominal, obstipação, vómitos, sangue nas fezes ou suspeita de obstrução.

  • Avaliação parasitária ou infecciosa: quando há ingestão de terra, fezes ou materiais contaminados.

  • Gravidez: avaliação obstétrica e nutricional quando a Pica surge durante a gravidez.

  • Neurodesenvolvimento: avaliação de autismo, deficiência intelectual, atraso do desenvolvimento, dificuldades sensoriais ou comunicação.

  • Avaliação emocional e familiar: stress, trauma, ansiedade, negligência, rotinas, supervisão e contexto ambiental.

  • Análise funcional do comportamento: o que acontece antes e depois da ingestão.

Tratamentos Disponíveis

O tratamento da Pica depende da causa, da idade, da substância ingerida e do risco médico. A prioridade é impedir dano físico.

Avaliação e tratamento médico

  • Análises ao sangue

  • Avaliação de ferro, ferritina, zinco e outros nutrientes

  • Avaliação de chumbo se houver ingestão de tinta ou materiais contaminados

  • Exames se houver suspeita de obstrução ou ingestão de objetos perigosos

  • Tratamento de parasitoses ou infeções

  • Acompanhamento obstétrico quando ocorre na gravidez

Segurança ambiental

  • Retirar tinta descascada

  • Bloquear acesso a terra, produtos tóxicos, objetos pequenos ou perigosos

  • Supervisionar em espaços exteriores

  • Guardar produtos de limpeza

  • Remover objetos cortantes, pilhas, ímanes e metais

  • Vigiar durante momentos de maior risco

  • Adaptar a casa, escola ou instituição

Intervenção comportamental

  • Análise funcional

  • Reforço de comportamentos seguros

  • Substituição por alternativas apropriadas

  • Ensino de comunicação

  • Treino de cuidadores

  • Prevenção de acesso

  • Rotina estruturada e reforço positivo

  • Redução de respostas que reforçam involuntariamente a Pica

Alternativas sensoriais seguras

  • Alimentos crocantes

  • Gelo apenas quando clinicamente seguro e sem risco dentário

  • Mordedores apropriados

  • Objetos sensoriais seguros

  • Atividades táteis

  • Acompanhamento por terapeuta ocupacional

Apoio nutricional

Nutricionista ou médico podem ajudar a melhorar alimentação, corrigir défices e garantir ingestão adequada de nutrientes. Na gravidez, o acompanhamento deve ser integrado com obstetrícia.

Terapia Cognitivo-Comportamental

  • Identificação de gatilhos

  • Adiamento do impulso

  • Substituição de comportamentos

  • Gestão de ansiedade

  • Redução de vergonha

  • Prevenção de recaída

Psicoterapia HBM como intervenção acessória

  • Que emoções antecedem o comportamento

  • Se a ingestão aumenta com ansiedade, solidão ou stress

  • Se há história de trauma, negligência ou insegurança

  • Que função emocional a substância tem

  • Que padrões familiares ou relacionais estão presentes

  • Que experiências de privação ou falta podem estar associadas

  • Como reduzir tensão emocional sem recorrer à ingestão

No entanto, a HBM não deve substituir avaliação médica, correção nutricional, supervisão ambiental, intervenção comportamental ou acompanhamento do neurodesenvolvimento quando necessário. Aqui, o seu papel é acessório: ajudar a tratar fatores emocionais que podem contribuir para a manutenção da Pica.

Trabalho com família e cuidadores

  • Que substâncias são perigosas

  • Como supervisionar

  • Como responder ao comportamento

  • Como evitar reforçar sem querer

  • Como criar rotinas

  • Quando procurar urgência

  • Como comunicar com a equipa clínica

A Clínica da Mente pode ajudar?

A Clínica da Mente pode ajudar de forma acessória, sobretudo quando a Pica está associada a ansiedade, stress, trauma, insegurança emocional, negligência, padrões familiares difíceis ou dificuldades de regulação emocional.

  • Quando começou o comportamento

  • Que emoções surgem antes da ingestão

  • Que situações aumentam o impulso

  • Se existe solidão, tensão, medo ou insegurança

  • Se há experiências de privação, negligência ou trauma

  • Que função emocional o comportamento pode ter

  • Que alternativas emocionais podem ser construídas

  • Como apoiar a família ou cuidadores

No entanto, a Pica exige sempre uma abordagem de segurança. A Clínica da Mente não deve ser apresentada como substituto de avaliação médica, pediátrica, nutricional, obstétrica, comportamental ou do neurodesenvolvimento. O trabalho mais seguro é integrado: primeiro proteger a saúde física, corrigir défices, reduzir acesso a substâncias perigosas e depois trabalhar os fatores emocionais que possam estar associados.

Como Viver com Esta Perturbação

Viver com Pica pode ser preocupante para a própria pessoa e para a família. O mais importante é reduzir risco e procurar avaliação adequada.

Não tratar como birra

A Pica pode ter causas médicas, nutricionais, sensoriais, comportamentais ou emocionais. Repreender sem compreender raramente resolve.

Garantir segurança

Remova ou limite o acesso às substâncias ingeridas. Em crianças e pessoas dependentes, a supervisão é essencial.

Procurar avaliação médica

Mesmo quando parece um comportamento estranho, é importante avaliar anemia, défices nutricionais, intoxicação, parasitoses ou obstrução.

Observar padrões

    Evitar vergonha

    Adolescentes e adultos podem esconder o comportamento por vergonha. Uma abordagem acolhedora facilita o pedido de ajuda.

    Ter plano de urgência

    Família e cuidadores devem saber o que fazer se houver ingestão de substâncias perigosas, objetos pontiagudos, pilhas, ímanes, tinta, químicos ou sinais de obstrução.

    Mitos e Verdades

    MitoVerdade
    É só uma fase.Pode passar, mas também pode persistir e causar complicações graves.
    Acontece apenas em crianças.Pode ocorrer em crianças, adolescentes, adultos, grávidas e pessoas com perturbações do desenvolvimento.
    É sempre culpa dos pais.Pode ter causas nutricionais, sensoriais, médicas, comportamentais e emocionais.
    Se come terra ou tinta, é só falta de educação.Pode ser Pica e exige avaliação médica.
    A Psicoterapia HBM resolve o problema.A HBM é acessória; o tratamento principal depende de avaliação médica, segurança, nutrição e intervenção comportamental.
    Se a criança parece bem, não há perigo.Algumas complicações, como intoxicação por chumbo ou parasitoses, podem não ser imediatas.
    Basta tirar o objeto.Remover acesso ajuda, mas é preciso compreender a causa e ensinar alternativas.
    É sempre por falta de nutrientes.Défices nutricionais são importantes, mas nem todos os casos têm essa causa.

    Quando Procurar Ajuda

    Deve procurar ajuda se uma criança, adolescente ou adulto ingere substâncias não alimentares de forma repetida.

    • O comportamento dura há mais de um mês

    • A pessoa tem mais de 2 anos

    • Há dor abdominal, vómitos, obstipação ou perda de peso

    • Existe anemia ou cansaço intenso

    • Há gravidez

    • Existe autismo, deficiência intelectual ou atraso do desenvolvimento

    • A família sente que não consegue garantir segurança

    • O comportamento aumenta com stress, ansiedade ou solidão

    A Pica pode ser tratada, mas exige uma abordagem integrada. A prioridade é proteger a saúde física, corrigir défices nutricionais, reduzir acesso a substâncias perigosas e aplicar intervenção comportamental. A Psicoterapia HBM pode ajudar de forma acessória quando existem fatores emocionais associados.

    Se houver ingestão de pilhas, ímanes, objetos cortantes, produtos tóxicos, sinais de obstrução intestinal, vómitos persistentes, sangue nas fezes, dor abdominal intensa, sonolência, confusão ou risco imediato, deve contactar o 112 ou dirigir-se à urgência.

    Tópicos relacionados

    picaingestão de substâncias não alimentaresgeofagiapagofagiaperturbação alimentarpsicoterapia HBM

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    Referências Científicas

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